Presidentes e desmatamento: estudo mostra como 35 anos de governos moldaram as florestas do Brasil – ClimaInfo
A destruição dos ecossistemas tropicais no Brasil costuma ser apresentada como consequência inevitável das forças econômicas globais ou do avanço do agronegócio. A história recente do país, porém, aponta outro fator determinante para a preservação ou o colapso de florestas e savanas: a caneta do presidente da República. A cada ciclo eleitoral, as escolhas feitas no Palácio do Planalto podem acelerar ou conter a perda de vegetação nativa, destaca o EcoDebate.
Essa é a conclusão central do estudo “Vegetation cover dynamics across presidential terms in Brazil”, liderado pela Universidade de Cambridge e assinado pelo biólogo da conservação Vinicius Tonetti. O trabalho, publicado na revista Environmental Research Communications, analisou dados do MapBiomas entre 1990 e 2025. O recorte abrange sete mandatos presidenciais nos três maiores biomas do país: Amazônia, Cerrado e Mata Atlântica.
Os resultados revelam diferenças expressivas entre os governos, associadas a mudanças nas políticas públicas e na governança ambiental, destaca o Nexo Jornal. Nos dois primeiros mandatos de Lula (2003–2010), o ritmo de perda de vegetação nativa diminuiu significativamente nos três biomas. O período coincidiu com o fortalecimento da fiscalização, a expansão do monitoramento por satélite e das Áreas Protegidas, além de restrições ao crédito rural em municípios com altas taxas de desmatamento.
Parte desses avanços foi revertida nos governos seguintes. A perda de vegetação voltou a acelerar nos mandatos de Dilma Rousseff (2011– agosto de 2016), tendência intensificada sob Michel Temer (agosto de 2016–dezembro de 2018). Já o (des)governo do atual presidiário Jair Bolsonaro (2019–2022) registrou a maior aceleração das perdas nos três biomas. Sua (péssima) gestão foi marcada pelo enfraquecimento da fiscalização e das sanções ambientais, por mudanças na aplicação e na cobrança de multas, pela interrupção do Plano de Ação para Prevenção e Controle do Desmatamento na Amazônia Legal (PPCDAm) e pela paralisação de novas demarcações de Terras Indígenas.
Desde o retorno de Lula à Presidência da República, em 2023, o desmatamento diminuiu substancialmente na Amazônia e na Mata Atlântica, em paralelo à retomada de ações de fiscalização e monitoramento — prova da força da “caneta” presidencial. No Cerrado, porém, a trajetória foi diferente. A perda de vegetação nativa no bioma continuou acelerando durante o atual governo até 2025.
Vale lembrar que o estudo não considerou os últimos números do sistema PRODES, do INPE, relativos ao período de agosto de 2025 a julho de 2026. Divulgado em 16 de outubro, o PRODES mostrou que a área desmatada no bioma foi a menor da história, totalizando 5.516 km². Uma queda de 23,7% em relação ao ano passado (7.235 km²) e de 48,4% nos últimos quatro anos.
Os dados indicam que a aplicação rigorosa da lei e o fortalecimento das instituições têm efeito rápido e mensurável na contenção do desmatamento. “Os presidentes brasileiros ditaram o destino das florestas e savanas do país por mais de três décadas. Vemos que mandatos presidenciais caracterizados por leis ambientais fortes, monitoramento por satélite e acordos de desmatamento zero estão claramente associados a reduções significativas na perda de habitat”, reforçou Tonetti.









