Impulsionado pela crise climática, El Niño bate recordes de temperatura antes de atingir pico – ClimaInfo
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Aumento da temperatura no epicentro do El Niño, no Pacífico, atingiu 3,05°C meses antes do pico; aquecimento pode chegar a 4°C em novembro.
21 de setembro de 2026

Resumo
A escalada do El Niño no Pacífico equatorial é tão surpreendente quanto assustadora. Dados recentes mosque o aquecimento das águas nessa região já superou o recorde histórico de calor vários meses antes do período em que o fenômeno costuma ser mais intenso. Para cientistas, a principal explicação para tamanha intensidade e rapidez está na crise climática, que “anaboliza” o fenômeno e seus impactos no clima global.
O Guardian cita dados da Climate Reanalyzer, da Universidade de Maine (EUA), que indicam que o aumento da temperatura da superfície do mar no epicentro do El Niño, no Pacífico, atingiu 3,05oC em relação à média de 1991 a 2020. É um índice superior ao recorde histórico de 3,02oC registrado no final de novembro de 2015. Já o indicador Niño 3.4, também chamado de ONI (Índice Oceânico Niño), mais utilizado por cientistas, está prestes a quebrar o recorde: está a apenas um centésimo de grau abaixo do recorde de 2015.
As projeções mais recentes indicam que o pico do El Niño atual, entre os meses de novembro e dezembro, deve chegar a 4°C — o que o coloca como um dos mais potentes já registrados na história. Os reflexos disso no clima global devem ser bastante intensos, com ocorrência ainda maior de eventos climáticos extremos.
“Este evento representa uma enorme redistribuição de energia no sistema climático e é perigoso porque está ocorrendo em um sistema climático muito mais quente e influenciado pela ação humana”, afirmou Friederike Otto, professora do Imperial College London, no Reino Unido. “Portanto, em muitos lugares do mundo, veremos ondas de calor extremas nunca antes experimentadas, com todas as suas consequências para a saúde e as seguranças alimentar e hídrica”, completou.
A intensidade do El Niño atual também desafia a história dos registros do fenômeno. Segundo O Globo, existe um padrão na formação do El Niño que antecipa sua intensidade: fenômenos que se formam no Pacífico Central, chamados de “Niños Centrais”, costumam ser mais fortes, enquanto os que surgem no Pacífico Leste, conhecidos como “Niños Costeiros”, costumam ser mais fracos. O El Niño de 2026 é um Niño Costeiro, mas apresenta uma força superior à de Niños Centrais.
Outro ponto de atenção é a precocidade. O El Niño atual se desenvolveu mais cedo do que os El Niños mais fortes e vem ganhando força mais rapidamente. Isso explica, ao menos em parte, os recordes de calor antecipados para o período de pico.
Apesar da intensidade, ainda não está claro como o El Niño atual interferirá no clima global. Um fator que ajuda a esclarecer isso está na área do oceano que mais aquece sob o fenômeno. Em geral, águas mais aquecidas na região Niño 3.4 (no Pacífico Central) influenciam mais Amazônia, Austrália, EUA e Sul da Índia. Já na região Niño 3 (no Pacífico Leste), o sul do Brasil pode ser mais impactado por chuvas extremas.
“Estamos ansiosos para saber onde será o máximo de temperatura no Pacífico. Dependendo da região, haverá mais ou menos influência no Brasil, por exemplo”, afirmou Tércio Ambrizzi, coordenador do Núcleo de Apoio à Pesquisa em Mudanças Climáticas da Universidade de São Paulo (USP).
Para a primavera, que começa nesta 3a feira (22/9), o Instituto Nacional de Meteorologia (INMET) prevê temperaturas acima da média na maior parte do Brasil, com alterações no regime de chuvas e maior ocorrência de tempestades em diferentes áreas do país. No Sul, as chuvas devem ser mais intensas, com possibilidades de episódios de tempestade e tempo severo. Já no Sudeste, as chuvas devem se manter acima da média em São Paulo, Rio de Janeiro e no centro-sul de Minas Gerais, com possibilidade de ondas de calor.
No Centro-Oeste, o cenário é de chuvas abaixo da média no centro-norte do Mato Grosso e no norte de Goiás, e acima da média em Mato Grosso do Sul e no sul de Goiás. No Norte, a primavera será mais quente e seca, com chuvas abaixo da média em Roraima, no norte e nordeste do Amazonas e no oeste e centro-sul do Pará. Por fim, no Nordeste, a tendência é de calor acima da média e déficit de calor na maior parte da região, detalha a CNN Brasil.
A chegada de um “Super El Niño” desafia as cidades brasileiras a se prepararem para eventos extremos, destaca a Revista Pesquisa FAPESP. De sua parte, o governo federal segue reforçando que está preparado para lidar com os impactos do fenômeno no Brasil. O ministro da Integração e do Desenvolvimento Regional, Waldez Góes, ressaltou ao Valor que, apesar da incerteza, o poder público quer agir antecipadamente, levando em conta o risco de ocorrerem chuvas abundantes em algumas regiões e secas intensas em outras.
No entanto, o governo vê risco de perda de produção agrícola no Centro-Oeste e no fornecimento de água no Nordeste no ano que vem. Outro temor é de impactos negativos da seca na navegação e no fornecimento elétrico na Amazônia.
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