Florestas tropicais podem deixar de ser sumidouros de carbono com El Niño – ClimaInfo
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Além do fenômeno, florestas tropicais estão sendo afetadas em sua capacidade de fotossíntese por ondas de calor, mostra um novo estudo.
19 de julho de 2026

Resumo
Com a quase certeza de que o El Niño de 2026-2027 será muito forte, cientistas lançam alertas sobre as florestas tropicais. Uma pesquisa de 2023 mostrou que as florestas tropicais da América do Sul podem deixar de atuar como sumidouros de carbono durante o fenômeno. Além disso, um estudo recente aponta o impacto de ondas de calor – cada vez mais frequentes e intensas devido às mudanças climáticas, e agravadas com a vigência do El Niño – sobre o processo de fotossíntese da vegetação tropical em todo o planeta.
As florestas tropicais absorvem CO₂ pela fotossíntese e o convertem em biomassa. Mas o equilíbrio entre fotossíntese e respiração é delicado e depende de dois fatores: temperatura e disponibilidade de água, explica Amy Bennett, pesquisadora associada na Escola de Ciências da Terra e do Meio Ambiente da Universidade de Leeds, em artigo no The Conversation, repercutido por Terra e Brasil 247. Amy é uma das autoras do estudo de 2023 que verificou os impactos do El Niño de 2015-2016 sobre a vegetação tropical.
Em condições mais quentes e secas, como as criadas pelo El Niño, as plantas fecham os poros de suas folhas para evitar a perda de água. Mas é por meio desses poros que elas absorvem CO₂. Ou seja, isso priva as plantas do carbono necessário para a fotossíntese e para o seu crescimento.
Assim, em anos do El Niño, caracterizados por alta temperatura e seca nas regiões tropicais, o estresse climático prolongado leva à redução do crescimento florestal e ao aumento da mortalidade das árvores. Os efeitos disso são sentidos por décadas, pois o carbono é liberado de volta à atmosfera quando as árvores mortas se decompõem.
No El Niño de 2015-2016, quando as temperaturas terrestres estavam, em média, pelo menos 1oC acima das condições habituais, algumas florestas tropicais da América do Sul passaram a ser emissoras líquidas de carbono. Isso suscita preocupações sobre o possível impacto do fenômeno atual na Amazônia e no clima global, destaca Amy.
Contudo, o “Super El Niño” é a “cereja do bolo” do estresse que as florestas tropicais vêm sofrendo devido às mudanças climáticas. Segundo um estudo publicado no Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS), ondas de calor levaram 57 milhões de hectares de florestas tropicais – área equivalente ao estado da Bahia – a ultrapassar os limites da fotossíntese, afetando sua capacidade de absorção de carbono. Esse número poderá quase dobrar até 2100, chegando a 160 milhões de hectares, área maior que a África do Sul, destacam Down to Earth e Economic Times.
Para chegar a tais números, pesquisadores compararam as temperaturas críticas catalogadas para 200 espécies com medições de temperatura derivadas de satélite, coletadas em florestas tropicais entre 2001 e 2020. “Em duas décadas, a área de floresta tropical com temperaturas no topo das árvores acima do limite crítico médio aumentou de 43 milhões para 57 milhões de hectares”, observaram.
Os autores do estudo afirmam que o estresse térmico afeta as reações bioquímicas nas folhas de maneira semelhante a como o calor extremo afeta as funções biológicas em humanos. “Quando as folhas ficam muito quentes, as proteínas que impulsionam a fotossíntese começam a se degradar. Como resultado, as árvores absorvem menos dióxido de carbono e crescem com menos eficiência”, afirma Charlotte Grossiord, professora assistente do Laboratório de Pesquisa em Ecologia Vegetal da École Polytechnique Fédérale de Lausanne, na Suíça, que liderou a pesquisa.
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