Fim da Moratória da Soja pode aumentar em 17% desmatamento na Amazônia – ClimaInfo
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Cerca de 1,4 milhão de hectares estão ameaçados de desmatamento no bioma nos próximos dez anos, mostra um novo estudo.
19 de julho de 2026

Resumo
Por quase 20 anos, a Moratória da Soja foi uma das iniciativas mais bem-sucedidas de mobilização do setor privado, sociedade civil e governo para conter o avanço do plantio da oleaginosa sobre a vegetação nativa na Amazônia. No entanto, o esvaziamento do acordo nos últimos meses traz de volta o fantasma do desmatamento atrelado à commodity agrícola.
Um estudo publicado na revista Science revela que o fim da Moratória da Soja pode ampliar o desmatamento na Amazônia ao longo da próxima década. De acordo com a pesquisa, cerca de 1,4 milhão de hectares – quase 10 cidades de São Paulo – poderão ser desmatados, o equivalente a 17% do desmatamento dos últimos dez anos. O impacto disso em termos de emissões é expressivo: cerca de 745 milhões de toneladas de CO2 equivalente (MtCO2e), comparável às emissões anuais do Canadá.
A análise foi realizada por pesquisadores das Universidades de Wisconsin, DePaul e Illinois (EUA), bem como do Greenpeace Brasil e do WWF-Brasil. Além de reforçar a importância da Moratória para a contenção do desmatamento amazônico nos últimos 20 anos, o estudo também ressalta o risco de retrocesso em um cenário de descontinuidade da iniciativa.
Segundo a pesquisa, 9,1 milhões de hectares de vegetação em terras privadas, o equivalente a Portugal, poderão ser desmatados legalmente para cultivo sem a Moratória da Soja. Outros 28,7 milhões de hectares em florestas públicas não destinadas, área comparável à Itália, também estarão vulneráveis.
“O efeito do fim da Moratória não vai ser majoritariamente nas propriedades que já produzem soja, vai ser nas outras, porque já abriu a perspectiva para expansão em áreas que nunca tiveram soja antes”, explica Lisa Rausch, da Universidade de Wisconsin, coautora do estudo, à Folha. Entre as áreas sob risco está o entorno da BR-319, que liga Manaus (AM) a Porto Velho (RO), e cuja pavimentação pode facilitar a destruição ambiental da região.
Dados do estudo indicam que, em seus primeiros dez anos de vigência, a Moratória permitiu a redução do desmatamento em 35% em áreas de risco para expansão da soja. A perda florestal evitada é estimada em 1,8 milhão de hectares. “A Moratória da Soja mostrou que é possível ampliar a produção agrícola mantendo critérios de conservação”, observa Tiago Reis, do WWF-Brasil, outro coautor da pesquisa, à Agência Brasil.
Apesar dos resultados positivos tanto para a Floresta Amazônica como para a produção brasileira do grão, a Moratória da Soja foi alvo de forte oposição do agronegócio nos últimos anos, com apoio ferrenho de alguns políticos. Vários estados da Amazônia Legal, como Mato Grosso, Rondônia, Tocantins e Maranhão, aprovaram leis que retiram benefícios às empresas que aderiram à iniciativa. Mesmo com a constitucionalidade dessas leis em xeque no Supremo Tribunal Federal (STF), foi o suficiente para fazer a Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais (Abiove) e empresas abandonarem o acordo no começo de 2026.
“A validação das leis estaduais pelo STF terá impacto no quanto as empresas serão encorajadas a assumir compromissos mais ambiciosos em relação ao Código Florestal, podendo também afetar outras cadeias produtivas”, frisa Cristiane Mazzetti, coordenadora de florestas do Greenpeace Brasil e também coautora do estudo, ao Globo Rural.
Brasil de Fato, Capital Reset, Canal Rural e Poder360, entre outros, também destacaram o estudo.
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