Atividades humanas são principal fator de emissão de carbono na Amazônia, mostra estudo – ClimaInfo
22 de outubro de 2026

Resumo
As atividades humanas, como o desmatamento e os incêndios florestais, são as principais responsáveis pelas emissões na Amazônia brasileira. Elas pesam mais do que as mudanças climáticas. É o que mostra um estudo liderado pela pesquisadora Luciana Gatti, do INPE, publicado na 4ª feira (21/10) na revista Nature, que analisou 15 anos de medições aéreas de dióxido de carbono sobre a floresta.
Uma floresta saudável funciona como uma esponja de carbono: retira CO₂ do ar para crescer e ajuda a frear o aquecimento global. Na Amazônia brasileira, essa conta passou a fechar no negativo, destacam g1, Agência FAPESP e Amazonas Hoje. Entre 2010 e 2024, a Amazônia lançou na atmosfera, em média, 1,17 bilhão de toneladas de CO₂ a mais do que absorveu por ano, mostra a pesquisa. É mais da metade das emissões brutas do Brasil em 2025, segundo o Sistema de Estimativas de Emissões de Gases de Efeito Estufa (SEEG), do Observatório do Clima.
Duas forças explicam a virada. A primeira é a ação humana direta: o desmatamento elimina as árvores que capturariam carbono, e o fogo devolve ao ar o carbono armazenado na vegetação. A segunda é o clima: secas e calor extremos fazem a floresta crescer menos e absorver menos carbono. A pesquisa mediu o peso de cada uma dessas forças e constatou que a ação humana predomina. O clima extremo funciona como um amplificador: agrava um estrago que começa no chão da Floresta Amazônica.
“Quem mais afeta a Amazônia, quem está matando a floresta, não é a mudança climática, mas a ação humana. Precisamos estar atentos à mudança do clima, mas mais atentos ainda às políticas públicas que podem proteger a nossa floresta e, consequentemente, o nosso clima”, explicou Luciana. Políticas que correm sério risco de ir para o ralo se Flávio Bolsonaro (PL) vencer o 2º turno das eleições presidenciais, no domingo (25/10).
Os pesquisadores usaram dados coletados entre 2010 e 2024 por meio de voos em aviões de pequeno porte, com a quantificação de CO₂ e monóxido de carbono (CO) realizada no Laboratório de Gases de Efeito Estufa (LaGEE), do INPE. As coletas foram realizadas em quatro localidades, abrangendo 100% da Amazônia brasileira.
A análise combinou medições de carbono com dados de desmatamento e incêndios, precipitação, temperatura do ar e indicadores de temperatura da superfície do mar (ONI) na região equatorial do Oceano Pacífico e no Oceano Atlântico Tropical Norte (TNA).
Em média, ao longo de 15 anos, o balanço de carbono da Amazônia foi de 0,32 petagramas de carbono (PgC) por ano, o que equivale a 1,17 bilhão de toneladas de CO₂ anuais. Os incêndios constituíram a principal fonte de carbono, com emissões médias de 0,40 PgC/ano, equivalentes a 1,47 bilhão de toneladas de CO₂ por ano. A diferença, de 300 milhões de toneladas de CO₂ anuais, foi a parte de carbono absorvida pela floresta.
Além de identificar os fatores associados às emissões, a pesquisa evidencia mudanças nas condições climáticas da região ao longo das últimas décadas. Nos últimos 46 anos, o desmatamento e a degradação de longo prazo na Amazônia reduziram a precipitação anual em 8% e, durante o pico da estação seca, entre agosto e outubro, em 20%. No mesmo período, a temperatura média anual aumentou 1,13°C, enquanto no pico da estação seca, a elevação chegou a 1,81°C.
Essas alterações comprometem as condições necessárias à manutenção da floresta tropical úmida e contribuem para um ciclo de retroalimentação. A perda de vegetação reduz as chuvas e eleva as temperaturas, favorecendo novas queimadas e ampliando a degradação da floresta remanescente.
Assim, o estudo mostra que a atividade humana e a crise climática não atuam de forma isolada. Ao contrário, seus efeitos se intensificam mutuamente. Por isso, a redução das emissões exige não apenas a diminuição do desmatamento, mas também o combate ao uso do fogo, tanto no manejo da terra quanto ao seu uso como forma de desmatamento, além da recuperação de áreas degradadas.
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