Usinas a combustíveis fósseis contratadas pelo governo podem emitir até 40 milhões de toneladas de CO₂ por ano – ClimaInfo
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O volume se aproxima das emissões totais de Santa Catarina em 2024, segundo dados do SEEG, do Observatório do Clima.
27 de março de 2026

O leilão de reserva de capacidade (LRCAP) promovido em duas fases pelo Ministério de Minas e Energia (MME) na semana passada não doerá apenas no bolso da população brasileira. Com a contratação de termelétricas a gás fóssil, carvão, diesel e óleo combustível, a geração de energia elétrica no Brasil também ficará mais suja, com mais emissões de gases de efeito estufa, o que agravará as mudanças climáticas.
De acordo com a 5ª edição do Boletim Leilão de Energia Elétrica, do Instituto de Energia e Meio Ambiente (IEMA), a operação dessas usinas poderá gerar até 40 milhões de toneladas de CO₂ equivalente (MtCO₂e) por ano, informam Canal Solar e Canal Energia. Isso equivale a praticamente as emissões de 2024 do estado de Santa Catarina, de acordo com o Sistema de Estimativas de Emissões e Remoções de Gases de Efeito Estufa (SEEG), do Observatório do Clima.
As estimativas do IEMA consideraram três cenários de operação (alta, média e baixa utilização), com base em diferentes fatores de capacidade e parâmetros de planejamento. As emissões de 40 MtCO₂e anuais correspondem ao cenário de alta utilização. Na baixa utilização, ficam em torno de 1 MtCO₂e – equivalente às emissões de João Pessoa (PB), segundo o SEEG. O pico de emissões tende a ocorrer entre 2031 e 2036, quando há maior sobreposição entre os contratos.
Apenas as novas usinas, que representam 56% da capacidade contratada entre as plantas à base de combustíveis fósseis e operarão por mais tempo, devem emitir cerca de 50% a mais do que as usinas já existentes no cenário mais conservador, de baixa utilização. “Como o leilão visa garantir potência nos momentos de maior demanda, o despacho das usinas contratadas varia ao longo do tempo em função das condições do sistema elétrico. As emissões anuais dependerão diretamente do nível de acionamento dessas usinas, que é influenciado pela gestão das renováveis, pela implantação de tecnologias como baterias e pelas condições dos reservatórios das hidrelétricas”, explica Raissa Gomes, pesquisadora do IEMA.
A distribuição geográfica dos empreendimentos também chama a atenção, destaca a entidade. As térmicas se concentram principalmente no litoral do Nordeste e no estado do Rio de Janeiro, além de alguns pontos da Região Norte, geralmente próximas a infraestruturas já existentes de gás fóssil.
Esse padrão leva à concentração de impactos socioambientais nesses territórios, podendo gerar conflitos em áreas já sujeitas ao estresse hídrico e má qualidade do ar. Municípios como Caucaia (CE), Barra dos Coqueiros (SE), Macaé (RJ) e Ipojuca (PE) já registram sobreposição de usinas existentes e novas, com aumento significativo da capacidade instalada. Apenas em Caucaia e Barra dos Coqueiros, foram adicionados cerca de 4 gigawatts (GW).
A contratação de 19,5 GW, majoritariamente de termelétricas, foi apresentada como resposta à necessidade de segurança energética – característica comumente associada aos combustíveis fósseis, mas que a guerra no Irã jogou por terra. Porém, o principal gargalo do sistema elétrico brasileiro não é a falta de geração, mas a ausência de mecanismos adequados para lidar com a energia excedente em certos horários e com a variabilidade das fontes renováveis.
“O LRCAP contratou um volume excessivo de térmicas, com perfil inadequado de flexibilidade e, com isso, perdeu a oportunidade de conciliar soluções mais alinhadas à transição energética, como o armazenamento de energia, a resposta à demanda e a modernização dos sinais econômicos do leilão. Investimentos em transmissão e em modelos mais avançados de previsão também poderiam reduzir a necessidade de contratação adicional de capacidade”, avalia Ricardo Baitelo, gerente de projetos do IEMA.
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