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April 16, 2026
Clima

O milho, a eletricidade e o Fundo Clima – ClimaInfo

  • Abril 12, 2026
  • 5 min read
O milho, a eletricidade e o Fundo Clima – ClimaInfo

12 de abril de 2026

  • Délcio Rodrigues, diretor-executivo do Instituto ClimaInfo
Divulgação

O BNDES anunciou há pouco um financiamento de R$ 1 bilhão para a construção de uma usina de etanol de milho no Mato Grosso com juros subsidiados do Fundo Clima. A pergunta que surge da leitura do anúncio é se a construção de uma usina de etanol de milho deveria ser financiada pelo Fundo Clima. Acreditamos que não. Para além deste tipo de projeto ser capaz de obter recursos de fundos convencionais, entendemos que o tão especial Fundo Clima deve fomentar projetos estruturantes, capazes de criar novos caminhos de baixo carbono para a economia brasileira. Usinas de etanol de milho fazem parte de um caminho traçado há décadas – o dos biocombustíveis – e não trazem grande inovação. 

Mas o que seria um projeto estruturante? Vamos pensar no exemplo do transporte de cargas em longas distâncias. O setor de transportes é responsável por aproximadamente 11% das emissões totais do país; uma parte importante dessas emissões é gerada pelo transporte da carga geral puxada por caminhões a diesel. Como 90% desta carga trafega entre São Paulo, Rio e Belo Horizonte, eletrificar o transporte nestes trechos traria impactos positivos no custo e na velocidade do transporte, com benefícios óbvios para a economia e a população. Esta eletrificação também reduziria as emissões brasileiras de gases de efeito estufa. Caminhões elétricos emitiriam muito menos destes gases do que os movidos a diesel, e bem menos que os movidos a biocombustível.

A eletrificação do transporte nas rodovias Dutra, Fernão Dias e BR-040 é um exemplo do que chamamos de projeto estruturante. Além dos benefícios para o clima do planeta, a economia brasileira se beneficiaria do surgimento de um novo setor industrial, devido à demanda por caminhões elétricos, equipamentos para estruturas de recarga, baterias e muito mais. Outros subsetores da indústria de transporte, como o de veículos elétricos leves seriam, também, beneficiados. 

Vale dizer que caminhões não são um sonho futurista. A China produz caminhões pesados com autonomia superior a 700 quilômetros e recarga em 30 minutos, plenamente capazes de percorrer as distâncias do triângulo Rio-SP-BH com custos totais inferiores aos dos caminhões a diesel convencionais. Naquele país, 13,5% da frota de caminhões é elétrica; na Europa, 2,5%; no Brasil, só 0,4%, em sua maioria de pequeno porte e uso urbano. Um projeto coordenado poderia induzir a fabricação de caminhões elétricos pesados e semipesados, bem como de toda a cadeia de equipamentos e de sistemas associados. 

O mercado não conseguirá estruturar este projeto no curto ou no médio prazo, já que este depende de ações coordenadas entre vários segmentos da economia. O BNDES, por sua missão, é o ponto focal capaz de coordenar esta estruturação, chamando para a conversa grandes transportadoras, fabricantes de caminhões e de equipamentos complementares, e distribuidoras capazes de investir na construção de postos de recarga. Todos se beneficiariam e contribuiriam para mitigar as mudanças climáticas. Os caminhoneiros independentes se beneficiariam no médio prazo, pois operam caminhões usados que vêm, originalmente, das grandes transportadoras.

De quebra, a Petrobras poderia aproveitar o projeto para retomar sua área de distribuição. A empresa tem experiência em ter postos espalhados por todas as rodovias do país e em conhecer, como ninguém, os fluxos, gargalos e necessidades geográficas da logística de carga. 

Não por acaso, a própria indústria aponta a infraestrutura de recarga como o principal obstáculo à expansão dos caminhões elétricos no país. Ao mesmo tempo, há sinais de que essa transformação ainda enfrenta resistências relevantes. A própria liderança da Petrobras tem indicado preferência por soluções híbridas, argumentando que a eletrificação total da frota brasileira seria difícil diante das características territoriais e logísticas do país

Essa visão pode ser um grave erro estratégico. O envolvimento da companhia na eletrificação das principais estradas brasileiras contribuiria para a transformação da empresa de petróleo em uma de energia. É o que  propõe o Observatório do Clima no seu documento A Petrobras de que Precisamos, um esforço de planejamento liderado pela sociedade civil, já que a empresa não tem um plano claro de transição energética.

O ponto, portanto, vai além de escolher entre etanol de milho e eletrificação, mas decidir qual papel o Estado quer desempenhar na transição energética. O Fundo Clima não deveria apenas reduzir emissões na margem, financiando projetos de tecnologia já consolidada, mas sim abrir caminho para transformações estruturais que o mercado, sozinho, não consegue viabilizar. Em um contexto de restrição fiscal e urgência climática, cada real investido implica uma escolha sobre o futuro da economia brasileira. Usá-lo para repetir o passado é desperdiçar uma oportunidade rara de construir o próximo ciclo de desenvolvimento.

  • A Petrobras de que precisamos
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