Negacionista climático pede para os britânicos “curtirem” o calor extremo – ClimaInfo
18 de agosto de 2026

Resumo
O vice-líder do partido de extrema-direita Reform UK, Richard Tice, foi acusado na 2ª feira (17/8) de espalhar desinformação sobre a crise climática e de mostrar-se insensível aos efeitos do calor intenso deste verão no Reino Unido. Em uma fala digna de Maria Antonieta, o político minimizou o impacto das altas temperaturas no país e disse que os britânicos deveriam “curtir” o clima mais quente e ser menos “pessimistas” quanto às mudanças climáticas.
“Quando o tempo estiver um pouco mais quente, vamos aproveitar. E se isso significa que o vinho e o espumante inglês ficarão cada vez melhores, fantástico”, disse o parlamentar, citado pelo Independent. “Vamos celebrar algumas dessas coisas, em vez de ficarmos só lamentando e pessimistas.”
Questionado sobre as ondas recentes de calor no Reino Unido, Tice usou uma argumentação que vem ganhando força entre os negacionistas da crise climática: ele disse reconhecer que o clima está mudando, mas rejeita qualquer responsabilidade humana pela crise.
“As mudanças climáticas sempre aconteceram. E sempre acontecerão. Talvez a coisa mais inteligente a fazer seja se adaptar a elas do que pensar arrogantemente que você pode impedi-las”, afirmou.
A fala causou rebuliço no Reino Unido, com vários políticos, especialistas e representantes da sociedade civil criticando a falta de noção e de sensibilidade de Tice diante do calor extremo. Que, aliás, causou pelo menos 2,8 mil mortes somente neste ano no país, segundo dados do governo britânico.
“Com incêndios florestais devastando o Reino Unido e a seca ameaçando o abastecimento de água e a segurança alimentar, comentários como esses não apenas levantam sérias dúvidas sobre seu discernimento, como também expõem onde realmente residem seus interesses”, criticou Bridget Phillipson, presidente do Partido Trabalhista, no Guardian.
Já o Greenpeace ressaltou no Financial Times que Tice e Reform UK são suspeitos nessa “defesa do calor extremo”, pois receberam generosas contribuições financeiras da indústria de combustíveis fósseis. “O Reform UK deveria dizer isso às enfermeiras que desmaiam durante o trabalho, aos agricultores que perdem as colheitas e às pessoas que fogem de casas em chamas para aproveitar o tempo quente e ver qual será a reação”, disse Amy Cameron, diretora de programa do escritório do Greenpeace no Reino Unido. Daily Mail e Times também repercutiram a fala de Tice.
Enquanto o político britânico fala em “curtir” o calor extremo, os europeus enfrentam um verão desafiador, especialmente no oeste do continente. Uma sucessão de quatro ondas de calor desde maio trouxe recordes de altas temperaturas no Reino Unido, França, Espanha e Alemanha. Junto com o calor, o tempo seco também contribuiu para a propagação de incêndios florestais em várias regiões da Europa, especialmente nos arredores da capital espanhola, Madri, e no sudoeste da França.
O cenário também é dramático para os agricultores. Segundo o Guardian, a produção de hortaliças caiu de forma muito significativa na França, com perdas que vão desde 25% para abobrinhas até 100% para alcachofras. A produção de cereais também foi afetada pelo calor intenso, com a produção estimada de milho nos campos franceses em 2026 cerca de 35% menor do que no ano passado. Já na Itália, cerca de 60% das terras agrícolas estão afetadas por secas, de leves a severas, com expectativa de queda de 20% na produção de leite.
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