Eleições 2026: candidatos somam R$ 176 milhões em multas por destruição ambiental na Amazônia – ClimaInfo
14 de setembro de 2026

Resumo
Daniel Santos, que adotou o nome político de Dr. Daniel, do Podemos, percorre o interior do Pará, apresentando-se como o candidato do agronegócio e da mineração ao governo do estado. Ele diz que vai “libertar o setor produtivo”. Aproximou-se do bolsonarismo — sua candidata a vice-governadora é Ellayne D’Almeida, do PL — e prometeu expandir a produção agropecuária e atuar contra a demarcação de Terras Indígenas. Fez ainda outra promessa: cancelar multas ambientais.
Dr. Daniel tem motivos pessoais para atacar a fiscalização ambiental. Em 2024, ele foi multado em R$ 1,4 milhão pelo IBAMA por desmatar 280 hectares de vegetação nativa sem autorização. A área, equivalente a quase 300 campos de futebol, fica ao lado de sua fazenda no município de Tomé-Açu. A fiscalização atribuiu a Daniel a autoria do desmatamento por associá-lo à propriedade do candidato.
Dr. Daniel é um dos 75 nomes que disputam estas eleições carregando dívidas ambientais na Amazônia Legal, segundo um cruzamento de dados feito pela Sumaúma com base nas multas aplicadas pelo IBAMA. Sua vice, Ellayne D’Almeida, também aparece nos registros do órgão ambiental federal. Juntos, os 75 políticos tiveram 200 infrações registradas pelo IBAMA entre 2004 e 2026, totalizando mais de R$ 176 milhões em multas. Parte delas é contestada administrativa ou judicialmente, e algumas foram canceladas pela Justiça.
Os partidos NOVO, Podemos, PL e Republicanos concentram 113 das 200 infrações registradas no período — 57% do total. Quando a análise se concentra no período de 2022 a 2026, candidatos que concorrem pelo PL — partido do ex-presidente (e agora presidiário) Jair Bolsonaro e de seu filho, candidato à Presidência, Flávio Bolsonaro — concentram um terço das infrações: 15 das 46 registradas.
A Sumaúma destaca outros políticos na lista suja do IBAMA. Caso de Antonio Galvan, do AVANTE, candidato ao Senado por Mato Grosso, adversário histórico da Moratória da Soja, que tem duas multas na Amazônia no total de R$ 1,6 milhão, pela construção sem autorização de uma pista usada por aviões para pulverizar lavouras com agrotóxicos no município de Vera, no mesmo estado.
No Acre, José Lopes Júnior, o Zé Lopes, do Republicanos, tenta vaga na Assembleia Legislativa do estado carregando um império agropecuário construído pela família entre o Acre e o sul do Amazonas. Ele recebeu pelo menos 11 multas entre 2018 e 2024, que somam mais de R$ 7,8 milhões, por desmatamento nos municípios de Boca do Acre e Lábrea. No Acre, seu partido declarou apoio a Flávio Bolsonaro.
Tarcizio Burin, de 74 anos, chegou à Amazônia por volta de 2000 e tornou-se uma liderança na expansão da soja e do milho no Pará. Presidente do Sindicato dos Produtores Rurais de Dom Eliseu, na divisa com o Maranhão, entrou na política neste ano como primeiro suplente do senador Zequinha Marinho, do Podemos. Nos registros do IBAMA, Burin recebeu 13 autuações por desmatamento, queimadas e descumprimento de embargos, totalizando R$ 5,38 milhões.
Das 200 infrações identificadas no levantamento, 34 constam como canceladas na base do IBAMA. Uma delas é de Daniel Messac de Morais, do Mobiliza, candidato à Assembleia Legislativa de Goiás, que recebeu uma multa de R$ 50 milhões pelo desmatamento de 5.157 hectares de floresta nativa na Área de Proteção Ambiental (APA) Triunfo do Xingu. Nos registros, o político aparece associado a quatro autos de infração, que somavam R$ 60,7 milhões.
O advogado de Messac, Vinicius Borba, sustenta que a área embargada está fora da fazenda do candidato, apesar dos técnicos ambientais terem indicado que todos os acessos à área desmatada passavam por ela. Borba ainda representa produtores rurais autuados por crimes ambientais na Amazônia e atua na articulação da chapa do Dr. Daniel e de Ellayne D’Almeida. Em junho, acompanhou o senador Zequinha Marinho numa ofensiva contra os órgãos ambientais que aprendiam gado criado ilegalmente na Estação Ecológica da Terra do Meio, que sofre com as invasões de fazendas, principalmente a partir da APA Triunfo do Xingu.
O levantamento da Sumaúma se soma a outros que mostram como os infratores ambientais tentam infiltrar-se cada vez mais nas esferas políticas. A Associação Nacional dos Servidores de Carreira de Especialista em Meio Ambiente (ASCEMA Nacional) identificou 240 candidatos nas eleições de 2026 que possuem pelo menos um auto de infração ambiental válido em seu nome, somando mais de R$ 213 milhões em multas registradas. Partidos de direita e de centro-direita concentram a maior parte dessas candidaturas.
Já um levantamento da Agência Tatu e do Intercept Brasil revela que 13 candidatos do PL de Flávio Bolsonaro acumularam cerca de R$ 6 milhões em multas ambientais nos últimos três anos, liderando o ranking de candidatos mais autuados pelo IBAMA nas eleições de 2026. O valor representa quase 40% de todas as autuações aplicadas pelo órgão ambiental a candidatos a cargos eletivos neste ano.
-
Em tempo: A equipe do Tapajós de Fato passou parte do ano definindo a pauta e buscando financiamento para cobrir as eleições de 2026. Mas ameaças e episódios de violência levaram o site de Santarém (PA) a abandonar o projeto, revelam Repórter Brasil, Agência Pública e InfoAmazonia. Criado em 2020 durante a onda de negacionismo da pandemia, o Tapajós de Fato é um veículo independente que se tornou referência no jornalismo feito na Amazônia, denunciando violações sociais e ambientais. Mas, neste ano, não vai abordar os problemas, propor soluções para a região, nem investigar vínculos de candidatos com o garimpo, o agronegócio e as grandes obras. “Quando é melhor não falar, por uma questão de sobrevivência, na verdade, quem perde é a sociedade”, disse o coordenador de projetos João Paulo Serra. A decisão de não cobrir as eleições deste ano foi tomada após uma série de ameaças que indicavam falta de segurança no trabalho. Na eleição presidencial de 2022, a cabeça decapitada de um gato apareceu no terreno baldio onde a equipe estacionava a caminhonete de reportagem. Ao lado, um bilhete trazia o nome de Marcos Wesley Pedroso, o fundador do Tapajós de Fato, e avisava que ele seria a próxima vítima. Dias antes, os quatro pneus do veículo haviam sido rasgados. Em outro episódio, uma comunicadora foi atacada com uma faca e conseguiu desviar-se de vários golpes. O agressor não foi identificado, e o Tapajós de Fato não conseguiu determinar se o objetivo era matá-la, intimidar a redação ou se o episódio não tinha relação com o trabalho jornalístico. A violência não impediu a cobertura daquela eleição. Mas, em 2024, a insegurança levou o site a suspender a cobertura das eleições municipais. “A gente decidiu recuar de novo em 2026”, lamentou Pedroso.
- Amazônia
- destruição ambiental
- eleições
- multas ambientais








