Brasil pode transformar crise climática na sua maior oportunidade econômica – ClimaInfo
- Economia e clima
- Reportagem
Relatório do CETEx, da London School of Economics, feito com apoio do iCS, mostra como país pode liderar a agenda de desenvolvimento verde.
22 de julho de 2026
- João Talocchi e Renata Albuquerque Ribeiro, especialistas em Desenvolvimento Verde do ClimaInfo

Resumo
Enquanto Estados Unidos, Europa e China precisam investir trilhões de dólares para reduzir suas emissões e construir novas cadeias industriais, o Brasil já dispõe de alguns dos principais ativos disputados pela economia do século 21: energia limpa, terras agricultáveis, biodiversidade, minerais críticos e capacidade de produzir combustíveis renováveis. A questão não é se esses ativos têm valor. A questão é se o país conseguirá transformá-los em indústria, inovação e empregos de qualidade.
Estes argumentos são apresentados em um relatório do Centre for Economic Transition Expertise (CETEx), da London School of Economics, elaborado com apoio do Instituto Clima e Sociedade (iCS). O estudo propõe uma virada de chave: parar de tratar a resposta à crise climática como um custo, uma lista de sacrifícios, e passar a enxergá-la como aquilo que realmente é, uma estratégia de desenvolvimento econômico, uma chance de atrair investimento, criar empregos de qualidade, fortalecer a indústria e fazer o país crescer. E poucos países do mundo estão tão bem posicionados para aproveitar essa oportunidade quanto o Brasil.
O momento ajuda a entender o porquê. A economia global está sendo redesenhada por duas forças simultâneas. De um lado, as tensões entre as grandes potências estão reorganizando onde as coisas são produzidas e tornando mais valioso o que o Brasil tem de sobra: energia renovável, minerais estratégicos, terra fértil, água e biodiversidade. De outro, a transição para uma economia de baixo carbono deixou de ser pauta ambiental e virou a maior corrida de investimentos do século. Quem chegar primeiro leva as fábricas, as tecnologias e os empregos.
O Brasil larga na frente. Cerca de 90% da nossa eletricidade já vem de fontes renováveis, um feito que os Estados Unidos, a China e a Alemanha levarão décadas para alcançar. Somos referência mundial em biocombustíveis e temos enorme potencial em hidrogênio verde e minerais críticos.
Mas o relatório traz um alerta que o Brasil conhece bem de sua própria história: ter riqueza natural não garante ficar rico. Já fomos o país do pau-brasil, do açúcar, do ouro, do café… e, em todos esses ciclos, a maior parte do valor foi capturada por quem industrializava lá fora o que extraíamos aqui. O risco de repetir esse enredo é real: exportar sol, vento e minério baratos enquanto outros vendem, bem mais caro, os produtos feitos com eles.
Industrialização verde, um passo fundamental
Para escrever um final diferente, o estudo propõe uma estratégia baseada em três movimentos.
O primeiro deles é transformar o que a natureza nos deu em indústria. Não basta ter os recursos. É preciso usá-los para fabricar aqui os produtos que o mundo vai disputar: aço limpo, combustível sustentável para aviões, hidrogênio verde, fertilizantes. As diferentes tecnologias para produzir aço verde que estão sendo adotadas ou desenvolvidas no Brasil mostram o caminho: aproveitar uma vantagem natural e transformá-la em um produto industrial que ninguém mais consegue oferecer nas mesmas condições. E o timing pode ser perfeito: a Europa começou a taxar, na fronteira, produtos produzidos com alto nível de emissões de carbono, o que torna o aço sujo mais caro e o aço verde brasileiro mais competitivo.
O segundo é trazer o mundo para dentro. O investimento estrangeiro não deve ser só dinheiro entrando: deve trazer junto tecnologia, conhecimento e acesso a mercados. É o que está acontecendo no Porto do Pecém, no Ceará, que se tornou sócio do Porto de Roterdã, o maior da Europa, para transformar o sol e o vento do Nordeste em hidrogênio verde. Empresas de vários países já anunciaram bilhões de reais em investimentos nessa área. O relatório aponta que essa lógica vai se intensificar. Cada vez mais as fábricas do mundo vão se mudar para onde a energia limpa e barata está, e o Brasil pode ser um dos grandes destinos dessa migração.
O terceiro movimento é o governo fazer sua parte, com foco. Não se trata de subsidiar tudo, mas de escolher os setores em que o Brasil pode vencer e destravá-los, dando previsibilidade às regras, oferecendo financiamento de longo prazo e coordenando a infraestrutura, a formação de trabalhadores e a política comercial. Foi essa combinação – mercado considerável, incentivos certos e energia renovável – que convenceu a BYD, a maior fabricante de carros elétricos do mundo, a se instalar em Camaçari, na Bahia, no antigo complexo da Ford. Onde havia o símbolo da nossa desindustrialização, começa a nascer um polo da economia que vem.
Esses três pontos mostram que isso não é teoria. É algo que já começou,mas que só ganhará escala com estratégia, coordenação, vontade política e ambição.
A conclusão do relatório merece ser reiterada: proteger o clima e crescer economicamente não são agendas rivais, mas a mesma agenda. A crise climática vai reorganizar a economia mundial de qualquer jeito. A escolha do Brasil não é se quer participar dessa transformação, mas em que posição: como fornecedor de matéria-prima barata, mais uma vez, ou como protagonista industrial de uma nova era. Pela primeira vez em muito tempo, o final dessa história depende de nós.
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