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July 31, 2026
Ecoturismo e Meio Ambiente

Vlkolínec: Por que este vilarejo quer deixar a lista da Unesco? | G1

  • Julho 31, 2026
  • 7 min read
Vlkolínec: Por que este vilarejo quer deixar a lista da Unesco? | G1

Mas basta uma visita a Vlkolínec para perceber que a questão é bem mais profunda. Mais do que uma contestação ao selo da Unesco, o debate reflete a preocupação dos moradores em conciliar a preservação de seu modo de vida com o fluxo crescente de visitantes atraídos pela fama internacional da localidade.

“Quem vem com humildade, para admirar a vila e entender como as pessoas viviam aqui, é sempre bem-vindo”, diz Anton Sabucha, de 68 anos. “Esses não me incomodam. O problema são os mal-educados”.

Sentado sob uma cobertura em frente à sua casa de madeira, Sabucha folheia um livro sobre a história da vila, apontando fotografias de vizinhos e parentes. Sua esposa serve uma bandeja de bolinhos fritos.

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Ele se lembra da época em que cerca de 200 pessoas viviam em Vlkolínec. Hoje, apenas 17 moradores permanecem durante todo o ano.

A Unesco não criou o problema turístico da localidade. A vila foi declarada Reserva de Patrimônio da Arquitetura Popular em 1977, durante o período comunista na então Tchecoslováquia.

Privacidade cada vez menor

No entanto, Sabucha afirma que a inscrição de Vlkolínec na Lista do Patrimônio Mundial da Unesco, em 1993, acelerou as mudanças, atraindo visitantes que frequentemente esquecem que pessoas continuam vivendo nas centenárias casas de madeira.

“Você sai para o quintal querendo tomar um café tranquilamente com amigos. Então chega o primeiro turista e pergunta: ‘Como é viver aqui?’ Depois vem outro. E mais outro”, contou à DW.

Anton Sabucha diz que alguns turistas frequentemente esquecem que ainda há pessoas vivendo nas casas de madeira centenárias — Foto: Haris Jeelani Toogo/DW

Sabucha instalou uma barreira na entrada de sua propriedade com avisos de “proibida a entrada” e “proibido fotografar”. Mesmo assim, segundo ele, alguns visitantes continuam entrando em jardins particulares, pisoteando flores e tratando a vila como uma atração turística, e não como uma comunidade.

“Algumas pessoas veem a placa de ‘proibido fotografar’ e ainda assim tiram fotos. Simplesmente não respeitam a privacidade dos moradores”, relata.

O desaparecimento da vida tradicional

Para Sabucha, a maior perda tem sido o desaparecimento gradual do modo de vida tradicional da vila.

Os campos ao redor já não são mais cultivados como antes, antigos terraços agrícolas foram tomados pela vegetação e muitas das pessoas que moldaram a paisagem local já não estão mais ali.

Segundo ele, a renda gerada pelo turismo pouco contribuiu para reverter esse declínio.

Os moradores recebem cerca de 400 euros por ano provenientes da venda de ingressos — “mal dá para comprar combustível para o inverno”, afirma. Ao mesmo tempo, muitas das pessoas que hoje lucram com o turismo já não vivem na vila.

“Para um turista comum, estas são apenas casas de madeira. Para nós, são pessoas. Sabemos exatamente quem viveu em cada uma delas”.

Uma vila viva

Justine, uma turista francesa que visitava a localidade, acredita que o principal atrativo de Vlkolínec é justamente o fato de ela continuar habitada.

“Normalmente, lugares como este são museus. Aqui, as pessoas ainda vivem. Isso é único”, disse à DW.

Traçado urbano medieval permanece praticamente inalterado em Vlkolínec — Foto: Rob Cameron/DW

Ao saber que alguns moradores defendem a retirada da vila da lista da Unesco por causa do turismo, ela afirmou compreender a frustração.

“Ter pessoas caminhando pelo seu vilarejo todos os dias pode se tornar desagradável”, afirmou. “Mas, ao mesmo tempo, o turismo também beneficia a região. É difícil saber qual é a melhor solução”.

Nem todos querem deixar a lista

Nem todos concordam que a Unesco seja a responsável pelo problema.

Miro Parobek, responsável pelo turismo da cidade de Ružomberok — que administra Vlkolínec como distrito municipal — reconhece que o turismo trouxe desafios, mas argumenta que a resposta está em uma gestão mais eficiente, e não na retirada da vila da Lista do Patrimônio Mundial.

“Nossa prioridade é preservar a arquitetura tradicional”, afirmou à DW. “Mas também queremos que este continue sendo um lugar vivo. Queremos apoiar as pessoas que vivem aqui.”

Segundo Parobek, a prefeitura já respondeu às preocupações dos moradores substituindo grandes festivais por eventos culturais menores. Além disso, residentes passaram a se reunir regularmente com autoridades locais por meio de um grupo de trabalho dedicado ao tema.

O município também auxilia proprietários a obter subsídios para restaurar edifícios históricos e oferece transporte duas vezes por semana para idosos até a cidade vizinha de Ružomberok.

Parobek ressalta que todos os ingressos vendidos trazem a mesma mensagem:

“Vlkolínec não é um museu a céu aberto. Por favor, respeite a privacidade das pessoas que vivem aqui.”

Em busca de equilíbrio

Ele reconhece que equilibrar a proteção dos moradores com a recepção de visitantes não é tarefa simples.

Grande parte do otimismo das autoridades está ligada a projetos ainda em fase de planejamento.

Ružomberok busca financiamento da Noruega para um conjunto de medidas destinadas a reduzir a pressão turística sobre a vila. Entre elas estão a criação de um estacionamento fora da área histórica, melhorias em trilhas e sistemas de drenagem, restauração de celeiros e terraços agrícolas tradicionais e a transformação da antiga escola da comunidade em um centro cultural.

O projeto também criaria mais oportunidades para que os próprios moradores atuem como guias e responsáveis pela preservação do patrimônio.

É possível sair da lista da Unesco?

Anton Sabucha representa uma posição minoritária. Mas, mesmo que consiga apoio, retirar Vlkolínec da Lista do Patrimônio Mundial seria uma tarefa extremamente difícil.

Desde a criação do programa, em 1978, a Unesco removeu apenas três locais da lista: o Vale do Elba, em Dresden (Alemanha), após a construção de uma ponte; a zona portuária histórica de Liverpool (Reino Unido), devido a grandes projetos de reurbanização; e o Santuário do Órix-da-Arábia, em Omã, após a redução drástica da área protegida.

Em todos os casos, a Unesco concluiu que os locais haviam perdido de forma irreversível as características que justificaram sua inscrição.

Não há precedente de uma comunidade pedir voluntariamente para deixar a lista.

E, ao que tudo indica, Vlkolínec não será a primeira a conseguir isso.

Por que Vlkolínec é tão especial

De acordo com osite da Unesco, Vlkolínec é uma das mais bem preservadas aldeias rurais tradicionais da Europa Central. Situada em uma região montanhosa, a localidade reúne 43 casas de madeira praticamente intactas, além de celeiros, estábulos, uma escola histórica, uma igreja do século 19 e um campanário do século 18.

Seu traçado urbano medieval permanece praticamente inalterado, preservando a arquitetura popular típica das áreas montanhosas eslovacas e a relação histórica entre a comunidade e a paisagem agrícola ao redor.

Segundo a Unesco, Vlkolínec é um exemplo excepcional de assentamento rural tradicional da Europa Central e um dos conjuntos mais completos e autênticos desse tipo na região.

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