NotíciasAqui a notícia corre
July 23, 2026
Clima

Estudos reforçam riscos da exploração de petróleo na Foz do Amazonas – ClimaInfo

  • Julho 23, 2026
  • 6 min read
Estudos reforçam riscos da exploração de petróleo na Foz do Amazonas – ClimaInfo

22 de julho de 2026

foz do amazonas macapá ação
Thomas Mendel

Resumo

  • Dois estudos reforçam os impactos de eventuais vazamentos de petróleo na Foz do Amazonas. Com a Petrobras prestes a concluir, no início de agosto, a perfuração do poço Morpho no bloco FZA-M-59, e após relatório da DW mostrar que um vazamento ali pode atingir o Amapá, pesquisa da UFBA e da UFPE identificou que, em março, um vazamento eventual de óleo pode atingir as costas do Suriname e da Guiana Francesa em seis dias, cenário não previsto pela Petrobras.
  • Blocos à venda pela ANP apresentam risco ainda maior: em áreas vizinhas não avaliadas pela petrolífera, o óleo alcançaria a costa em sete das 12 simulações anuais, atingindo o Parque Nacional do Cabo Orange, a Reserva Biológica do Lago Piratuba, a Ilha de Maracá e a própria Foz do Amazonas, com risco concentrado entre setembro e abril, quando a Corrente Norte do Brasil enfraquece. Mesmo assim, a ANP indicou 36 áreas da região para possíveis leilões, oito delas inéditas.
  • O segundo estudo, que fez 47.500 simulações, chega a conclusões semelhantes: pesquisa da UFSB, do INPE e do Climatempo mostra que, entre janeiro e abril, a probabilidade do óleo atingir a costa da Guiana Francesa e do Amapá supera 40-50%, com até 12,5% de chance de intrusão na foz do Amazonas, risco que cai, mas não desaparece mesmo no período mais seguro. Por isso, ambos os estudos recomendam mais pesquisas e cautela antes de novas licenças e de novos leilões na região.
  • A Petrobras concluirá no início de agosto a perfuração do poço Morpho no bloco FZA-M-59, na Foz do Amazonas. Recentemente, a DW teve acesso a um relatório apresentado pela petrolífera ao IBAMA que mostra que um vazamento de petróleo na área pode atingir a costa do Amapá. E dois novos estudos reforçam o grande risco de explorar combustíveis fósseis não apenas no Bloco 59, mas também em toda a bacia.

    Uma das pesquisas, feita por cientistas das universidades federais da Bahia (UFBA) e de Pernambuco (UFPE), foi publicada na revista Continental Shelf Research. O estudo coloca em xeque as simulações da Petrobras sobre os impactos de vazamentos de óleo na região. Inicialmente, a petrolífera chegou a afirmar que o petróleo não atingiria o litoral brasileiro.

    Usando o software MEDSLIK-II – validado para simular potenciais derramamentos de petróleo -, os pesquisadores rodaram 48 simulações mensais em quatro pontos da Foz do Amazonas ao longo de 2023. Em geral, confirmaram o padrão de inverno e verão descrito pela Petrobras, mas encontraram uma exceção importante: em março, no início da primavera boreal, o petróleo atinge as costas do Suriname e da Guiana Francesa em seis dias, um período não contemplado nos estudos da empresa.

    O risco fica ainda mais evidente nos blocos vizinhos, hoje disponíveis para leilão pela Agência Nacional do Petróleo, Gás e Biocombustíveis (ANP), que não foram avaliados nos estudos da Petrobras. Nesses locais, as simulações mostram que o óleo alcança a costa brasileira e a de países vizinhos em sete das 12 simulações anuais, atingindo áreas sensíveis como o Parque Nacional do Cabo Orange, a Reserva Biológica do Lago Piratuba e a Ilha de Maracá, no Amapá, e a própria foz do rio Amazonas. Um dos pontos analisados, mais a sudeste da bacia, mostrou-se particularmente vulnerável, com risco de contato costeiro em quase todos os meses fora do período de maio a setembro.

    O estudo afirma que o período mais crítico do ano vai de setembro a abril. É justamente quando a Corrente Norte do Brasil enfraquece e perde sua “retroflexão”, o desvio que normalmente empurraria o vazamento de petróleo para o mar aberto, deixando ventos e marés dominarem o transporte do óleo rumo à costa. Já entre maio e setembro, quando a corrente e seu desvio se intensificam, nenhuma simulação indicou risco de contato costeiro.

    Diante das divergências em relação às avaliações da Petrobras, o estudo defende a necessidade de estudos mais aprofundados, considerando diferentes tipos de óleo, a variabilidade interanual e a validação específica do modelo para a região amazônica, antes da concessão de novas licenças ambientais na Foz. E recomendam reavaliar a oferta permanente de blocos na região até que os riscos sejam melhor compreendidos. No fim de junho, a ANP indicou 36 áreas na Foz para possível inclusão em leilões, das quais oito não haviam sido oferecidas anteriormente.

    O outro estudo, publicado no Journal of Marine Science and Engineering, também simula os riscos de vazamento de óleo na Foz do Amazonas. Pesquisadores da Universidade Federal do Sul da Bahia (UFSB), do INPE e do Climatempo fizeram 47.500 simulações probabilísticas de vazamentos em 95 poços na região, caracterizada por sua grande biodiversidade, incluindo a segunda maior área de manguezais do mundo e o sistema de recifes da Amazônia. O modelo, batizado de STFM, integra dados de correntes oceânicas, ventos e ondas e foi validado com boias de rastreamento por satélite, o que indica alta confiabilidade para previsões de até 20 dias.

    Segundo a pesquisa, entre janeiro e abril, quando a Zona de Convergência Intertropical favorece ventos em direção à costa, a probabilidade do petróleo chegar à costa passa de 40% a 50% em trechos extensos do litoral da Guiana Francesa e do Amapá, levando de 10 a 20 dias para chegar à costa. Já entre julho e outubro, com os ventos mais voltados para o mar aberto, essa chance cai para menos de 15%, e o petróleo tende a ficar retido por mais tempo em correntes oceânicas, percorrendo distâncias bem maiores antes de eventualmente encalhar.

    Mesmo em cenários mais “seguros”, o risco à Foz do Amazonas persiste, segundo o estudo. No período de maior risco (janeiro-abril), o estudo estima uma chance de 12,5% do óleo entrar na foz do rio Amazonas e de até 5% de atingir as baías de Marajó e São Marcos. Mesmo na estação mais favorável (julho-outubro), essa probabilidade de intrusão no rio Amazonas cai, mas não desaparece, mantendo-se em torno de 2%.

    Os autores destacam ainda que um vazamento em águas brasileiras poderia atingir rapidamente a Guiana Francesa, o Suriname e a Guiana. O que exige acordos de cooperação internacional antes que a exploração avance na região, reforçam os pesquisadores.

    • A Petrobras de que precisamos
    • combustíveis fósseis
    • foz do Amazonas
    • IBAMA
    • Petrobras

    Continue lendo

    Em foco

    Papo de Clima

    Aprenda mais sobre

    About Author

    Celia Mello

    Leave a Reply

    O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *