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May 6, 2026
Clima

Dependência do petróleo e energias renováveis na África – ClimaInfo

  • Maio 5, 2026
  • 11 min read
Dependência do petróleo e energias renováveis na África – ClimaInfo

5 de maio de 2026

  • Alexandre dos Santos*
Créditos: Climate Visuals Countdown/Raphael Pouget

Além da tragédia humanitária e da guerra suja pela disputa da narrativa, o confronto entre EUA, Israel e Irã escancara e nos lembra, mais uma vez, o quanto o petróleo nunca foi mera commodity e sempre foi um poderoso instrumento geopolítico. Para além da gangorra dos preços do barril do petróleo no mercado internacional, o vaivém em torno do Estreito de Ormuz amplifica uma questão que volta à tona com força renovada: como diminuir a insegurança energética e os impactos econômicos decorrentes da dependência do petróleo? Vamos lembrar que, para além dos países que importam combustíveis fósseis para alimentar o seu desenvolvimento, a alta volatilidade no preço do barril afeta câmbio, inflação, frete, custo de vida em todas as nações, inclusive as que se gabam de serem autossuficientes na produção de petróleo – como alguns países do continente africano, que estão entre os mais atingidos pelo choque atual.

É sempre bom lembrar que o preço alto do barril de petróleo não significa um ganho automático para a economia de quem exporta. Quando o país continua dependente da importação de combustíveis refinados e de fertilizantes, da logística rodoviária cara e das cadeias produtivas pouco eletrificadas por matrizes energéticas renováveis, uma parte da receita extra escoa pelo ralo da inflação. Em momentos de conflito ou de guerra, como neste começo de 2026, a capacidade de absorver melhor o golpe não está nas economias que apenas produzem e exportam petróleo, mas na capacidade de refinar e distribuir para o consumo interno, de substituir parte da energia gerada por hidrocarbonetos para matrizes renováveis, amortecendo o choque antes que ele chegue, em cascata, ao bolso do consumidor.

Momentos como o atual são perfeitos para se pensar e analisar possibilidades, porque é neles que as lideranças, antes avessas ou resistentes ao tema, “despertam” para o problema, para a relação inversamente proporcional entre o aumento de preços nos itens básicos do mercado interno e a popularidade e apoio político – sobretudo em um momento eleitoral. São nessas oportunidades que a agenda da energia renovável deixa de ser encarada como um “luxo retórico” de ambientalistas e cientistas e passa a ser debatida com mais senso de urgência para se converter em alternativa viável a uma política econômica mais eficiente e menos dependente.

Instalação de renováveis acelera, mas ainda está muito aquém do ritmo global

O mercado africano de energias renováveis é um exemplo disso. Vem crescendo de forma galopante. O continente bateu o recorde de energia gerada pela luz solar, através de placas fotovoltaicas, alcançando um total de 4,5 gigawatts (GW) de capacidade instalada em 2025, de acordo com as informações do Global Solar Council – uma alta de 54% em relação a 2024. 

Como um número como esse não faz o menor sentido para quem não é da área energética, equivale dizer que é, a grosso modo, o equivalente ao consumo anual de uma metrópole como Luanda (capital de Angola), e seus cerca de 10 milhões de habitantes. Ou aproximadamente uma vez e meia o consumo da cidade do Rio de Janeiro – a segunda mais populosa do Brasil, trazendo a comparação para nosso país.

Esse recorde continental é impactante para o continente africano, mas ainda não chega perto dos 64,2 GW da União Europeia, dos 42 GW dos EUA ou mesmo dos quase 12 GW do Brasil. Mas é um número importante, puxado por oito países que juntos são responsáveis pela capacidade instalada de cerca de 100 megawatts (MW) cada um, de acordo com o Global Solar Council: África do Sul, Nigéria, Egito, Argélia, Marrocos, Zâmbia, Tunísia e Botsuana.

Do grupo acima, três estão na lista dos cinco maiores produtores de petróleo do continente. Na ordem, de acordo com dados de 2024 da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep): Nigéria, Argélia, Líbia, Angola e Egito. Mesmo possuindo refinarias, todos vêm sofrendo impactos com a volatilidade do preço do barril de óleo cru no mercado internacional. Mas todos também já desenvolvem projetos de diversificação de suas matrizes energéticas – alguns avançados e outros ainda claudicantes.

Diferentes realidades na transição energética

A Nigéria, a maior produtora do continente, é o retrato do que pode ser chamado de “paradoxo estrutural”. A refinaria de Dangote, a maior das quatro existentes no país, supre pouco mais de dois terços da demanda interna de gasolina, mas isso não garante imunidade econômica. Os preços na bomba dispararam e chegaram a subir 65%, entre março e abril, comprovando que o refino, sozinho, não blinda o país do contágio dos preços internacionais. 

Ao mesmo tempo, o governo nigeriano vem desenvolvendo sua resposta estratégica com o National Energy Compact, um plano nacional de reformas estruturais com apoio do Banco Mundial e do Banco Africano de Desenvolvimento, que visa expandir a oferta de eletricidade e buscar acesso universal até 2030; ampliar a participação das energias renováveis na matriz energética nigeriana de 22% para 50%; e atrair investimento privado para integrar sistemas elétricos regionais. Numa economia ainda muito dependente dos geradores a diesel, diversificar a matriz é uma questão estratégica e de segurança.

A situação da Argélia parece a mais confortável no curto prazo. O país combina o grosso da sua exportação para a Europa (óleo cru e derivados) com maior capacidade de atender à demanda doméstica. O ganho econômico aparentemente compensa os aumentos nos preços de outras commodities. 

Mas isso não significa imobilismo. O governo argelino entende que cada megawatt gerado por fontes alternativas libera mais hidrocarbonetos para exportação e ajuda a reduzir o consumo doméstico de gás e derivados. E estabeleceu uma meta de produzir 15 mil MW a partir de fontes renováveis até 2035. É uma transição elaborada e posta em prática como cálculo estratégico. A Argélia sabe que diversificar sua matriz é fortalecer a segurança e a autonomia energética.

Já Angola, assim como a Nigéria, também “sofre ganhando”, pois o parque de refino ainda é pequeno e não atende à demanda interna. O petróleo responde por cerca de 25% do PIB e 94% das exportações. O barril caro representa um alívio imediato, mas não protege a economia. Pelo contrário, reflete a exposição e a fragilidade do país aos “humores” do mercado internacional. 

Ao menos a matriz energética angolana tem uma base relativamente limpa, com pouco mais de 70% da geração de eletricidade vinda de hidrelétricas, com base no relatório da Agência Internacional de Energia (IEA, na sigla em inglês). Mas o problema aqui não é a fonte, e sim a capilaridade. A eletricidade não chega a boa parte do território do país. Por isso, a prioridade da agenda angolana de transição é levar energia onde ela não chega, reduzir a dependência dos geradores a diesel fora dos grandes centros urbanos e usar a eletricidade mais barata para desenvolver a agricultura e a indústria.

Na Líbia, a questão energética é inseparável da fragmentação do Estado. A exportação de petróleo passa, em teoria e formalmente, pela National Oil Corporation (NOC), a estatal líbia de petróleo. Mas, na prática, boa parte dos campos é controlada pelas forças militares do leste, que representam um governo não reconhecido pela comunidade internacional. Num país em que petróleo e gás respondem por cerca de 60% do PIB e 94% das exportações, o alto preço do barril representa tanto alívio fiscal quanto gasolina – com o perdão do trocadilho – na fogueira das disputas políticas. 

Mesmo assim, o governo formal da Líbia, que controla a metade ocidental do território, reconhece que depender quase que exclusivamente dos hidrocarbonetos é um risco enorme. Assim, desenvolve uma estratégia para atrair investimentos estrangeiros e elevar o percentual de energia gerada por matrizes renováveis para algo em torno de 20%, como projeta a Estratégia Nacional de Energia Renovável e Eficiência Energética (SREEE), plano elaborado pelos órgãos públicos líbios e apoiado através de cooperação internacional. Na prática, porém, a maior questão na Líbia não são os hidrocarbonetos ou o parque tecnológico de geração de energia, mas as disputas políticas e militares dentro do seu território.

Já o Egito é talvez o caso mais didático sobre a diferença entre ter infraestrutura e estar protegido. Mesmo com oito refinarias, a queda da produção doméstica de gás elevou a conta de importação. De acordo com dados publicados pelo próprio governo egípcio, o gasto com energia mais que dobrou desde o início do conflito entre Estados Unidos, Israel e Irã. Só a importação de gás praticamente triplicou. 

Ao mesmo tempo, o país é reconhecido como uma das grandes referências continentais no investimento em diversificação da matriz energética. O plano egípcio é atingir 42% de eletricidade gerada por recursos renováveis até 2030 e passar dos 60% em 2040. O país é conhecido pelo parque solar de Benban, no deserto do Saara, com impressionantes 37 km², e que gera pouco mais de 2% da eletricidade consumida em todo o país. 

A Nova Capital Administrativa do Egito, embora não tenha sido planejada para ser totalmente sustentável, prevê projetos-piloto e vitrines tecnológicas para suprir de 30% a 35% das necessidades energéticas por células fotovoltaicas nos telhados dos principais edifícios e por um arranha-céu planejado para funcionar em regime híbrido, usando a geração das placas solares espalhadas pela fachada e hidrogênio líquido para a geração do restante da energia necessária para o funcionamento do prédio. Portanto, apesar das fragilidades, o país se tornou um dos melhores exemplos continentais de pensamento estratégico em renováveis, redes interligadas e apostas tecnológicas em hidrogênio.

Transição, o caminho da segurança energética para a África – e para todos os continentes

Uma das grandes lições desta crise é que, por mais robusta e diversa que seja uma economia, ela não passa totalmente imune a uma crise desse calibre. Refinarias ajudam a amortecer choques econômicos, mas não bastam. Exportar petróleo ajuda, mas não blinda economias. A entrada de reservas com o preço do barril nas alturas pode impulsionar o caixa num primeiro momento, mas o preço das commodities que dependem dos hidrocarbonetos nas suas cadeias produtivas e de distribuição dá repiques na inflação e se reflete no valor que o consumidor paga pelo produto final. 

A defesa real, sobretudo para países africanos que ainda convivem com a pobreza energética, não está em escolher entre hidrocarbonetos e renováveis como se fosse uma disputa ideológica, mas em diversificar a matriz, ampliar e integrar redes de distribuição, investir na indústria verde e na geração de valor. 

Se todo momento de crise também é um momento de oportunidades, a turbulência atual provou que ter refinarias ajuda, mas na hora da colisão essas plantas são mais “airbag” do que cinto de segurança. E a agenda da transição energética não pode mais ser encarada como uma promessa ou uma agenda dos ambientalistas, mas como parte da política de autonomia.

* Alexandre dos Santos é jornalista formado pela UERJ, mestre e doutorando em Relações Internacionais pela PUC-Rio, especialista em História e Geopolítica do Continente Africano e professor do Instituto de Relações Internacionais (IRI) da PUC-Rio. Também é responsável pelo canal no YouTube #Conexão África – África em Livros e mediador do clube de leitura África em Livros.

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